quinta-feira, fevereiro 19, 2009

O VESTIDO, AS ERVAS E O RIACHO.

Minha mãe havia mandado dona Alzira costurar um vestido para mim. Porque, é claro que se eu fosse pedir, ela não o faria.
Não sei por que dona Alzira não gostava de mim! Aliás, eu bem que sei! Que posso fazer se a filha dela era uma sonsa, nem estou dizendo feia.

Há cerca de dois meses antes do dia da encomenda de mamãe eu também encomendei um lindo vestido á ela, acho que foi essa, a penúltima vez que fui até a casa dela.
Ir até lá era uma coisa que sem saber, eu odiava fazer.
Dona Alzira morava perto de um riacho que me dava arrepios só em pensar que precisava passar perto dele.Esse riacho nascia há poucos quilômetros de nossa fazenda, e misteriosamente conseguia passar por todas as terras habitadas naquela região, desembocando no grande lago que tinha logo na entrada da cidade.

Mas, como queria muito aquele vestido, não conseguia achar outra maneira de tê-lo, se não fosse, eu mesma ir até lá para encomendá-l0.
Então fui, e pedi a ela que costurasse esse modelo que havia encontrado numa revista que tinha acabado de chegar da Capital.

Era a ultima novidade em moda no mundo, e ali naquele fim de mundo, ninguém sabia disso.
Eu tinha a certeza que se o usasse na festa de Miranda, todos só teriam olhos para ele.
Dona Alzira era simplesmente uma exímia costureira, e com tal atividade teria ela que ter as novidades em primeira mão, e sua filha seria a propaganda viva de seu trabalho.
Mas não era isso que acontecia, e sem a intenção, eu a irritava profundamente, e não foi diferente nesse caso.
Expliquei á ela como eu queria que ele ficasse, e não tive problema em frisar cada detalhe que nele eu observava.
Sabia dona Alzira que a riqueza de um modelo estava justamente em saber observar esses detalhes, e isso eu fazia muito bem. Ela observava com muita inveja aquele modelo, por ele não ter ido primeiro parar em suas mãos, e sim nas minhas.
A qualidade do corte apresentado naquele manequim exposto na revista era tanta que dona Alzira não se continha em saber que não poderia fazer um modelo igual para sua filha.

Uma vez ela o fez, e deu a maior confusão, pois ficou explicito que se tratava de uma cópia de uma encomenda feita por mim.


Então não me preocupava com esse perigo.
Estava ansiosa com o resultado, mas ela conseguiu fazê-lo exatamente como eu queria.
E não foi, que dona Alzira o entregou exatamente no dia do acontecimento.


Faltavam apenas algumas horas para a festa começar, e eu estava com ele em minhas mãos.

E naquele instante eu não tinha olhos para mais nada, apenas para ele.

Ele era maravilhoso, elegante, porém com referências específicas exigidas para a época. Poder-se-ia dizer que era muito requintado. Dona Alzira não deixou escapar um detalhe sequer, suas mãos bailaram com a tesoura na hora de seu corte, e com a agulha arrematou cada ponto que lhe fazia existir. Era de um azul turquesa que reluzia a luz da lua, deixando-o ainda mais intenso. O decote que descia pelo colo era coberto por uma malha delicada que formava em sua renda pequenas flores peroladas que contrastava delicadamente com o azul.
Já podia ver-me dentro dele.
Abracei dona Alzira com tanto deslumbramento que a encabulei, fazendo-a abraçar-me também.

Ao despedir-se, ela agradeceu o reconhecimento quando recebeu seu pagamento, e disse que qualquer coisa que precisasse ela estaria em casa.
Eu mal á ouvi, não conseguia ver à hora de entrar e experimentá-lo.

Preparei um banho bem quente, com eficientes ervas que minha mãe guardava dentro de algumas latas de sua coleção.
Dizia minha mãe que cada erva daquela tinha o efeito de curar um defeito e realçar uma qualidade, quando não, adquirir uma. Enfim que fazia bem para alguma coisa se soubéssemos usá-las.
Por isso então, eu já tinha o habito de furtar punhados de folhas contidas naquelas tão bem guardadas latas.
As furtava tentando fazer o menor barulho possível, pois minha mãe deixava sua coleção de latas exposta bem em cima do armário que ficava na sala principal, e por conta disso, tinha que ser muito habilidosa na hora de pegá-las.
Não que minha mãe não soubesse que eu as pegava, mas rezava a lenda que o efeito das ervas só se consumava se estas fossem roubadas, e nunca o ladrão poderia ser pego ou deixar que descobrissem sua escolha, se não seu efeito era cancelado.
Essa era mais uma das lendas que as envolviam, e minha mãe sempre a relembrava.
Não sabia se acreditava nisto ou não, sentia que minha mãe inventara isto, pois ela só estaria me ajudando se deixasse que as escolhesse, afinal somente eu sabia as que estava precisando.
E se ela participasse dessa escolha poderia influenciar-me.
Lembro-me que ela contava sobre o efeito que cada uma daquelas ervas causava e como e quanto dever-se-ia usá-las.
Ela nunca me dava a receita diretamente, contava-me uma história que numa necessidade, alguém usou-as, e por isso sabia ela para que cada erva daquela servia.Minha mãe era uma pessoa rara.
E não foi diferente naquele dia, assim que entrei dei uma boa olhada para ver se ela não estava por ali, e na confirmação, fui direto para as latas.
A primeira erva que peguei, foi a erva da sedução, essa eu sabia que não podia exagerar para não cair na vulgaridade.
Bem vestida eu estaria, pois no dia da encomenda do vestido eu tomei um banho com a erva do bom gosto.

Sempre ficava confusa nessas escolhas, eram tantas latas...A segunda que peguei foi a da sinceridade, não sei por que insistia nesta, as pessoas me parecem sempre mais felizes quando não são sinceras.
Enfim eu a peguei também, o complicado nesta é que o efeito não passa, ele se intensifica.
Agora a terceira eu tinha que pensar muito bem, porque era a minha ultima escolha.

Só era permitido pegar três por vez, isso eu tinha aprendido, quando achei bobagem esse alerta que minha mãe me deu em uma de suas histórias, achando que se tratava de mais uma lenda, e por tanta vontade que tinha de testá-las acabei desobedecendo-a e lembro que não eu muito certo,mas essa é uma outra estória.
Então, peguei um punhado de intuição.

Corri para o meu quarto e as cuidadosamente na joguei na banheira.

O vestido estava disposto sobre a cama e meus olhos não conseguiam ver outra coisa além dele.
Fiquei imersa mais de meia hora, e quando sai enxuguei-me delicadamente, afinal estava me preparando para algo que naquele dia era importante demais para mim.

Já era tarde..precisava arrumar-me mais rápido.

Naquela noite tudo conspirava ao favor meu favor.

Naquela noite também eu sentia muita vontade de estar especialmente bem apresentável.
Talvez por afirmação ou simplesmente por estar.

Sai renovada daquele banho, minha mãe já tinha me avisado que estava esperando por mim, mas não me preocupei, não tinha pressa para ficar pronta.
Enrolei-me na toalha e chamei-a para arrumar o meu cabelo.
Ela fez um bonito penteado deixando as mechas loiras que tinha soltas em apenas em um de meus ombros, dando a impressão que ele estava preso apenas de uma lado.

Assim que ela se retirou do meu quarto, fui até minha sapateira e apanhei um lindo par de scarpam, comprados especialmente para esta ocasião.

Depois abri a gaveta da cômoda e procurei minhas meias, não conseguia achar as ligas e acabei pedindo um par emprestado para minha ela.
Minha roupa intima tinha sido cuidadosamente separada, seguindo o critério de bem estar que gostava de sentir, então optei por um conjunto de calçola e uma camisete de seda pura, que não apertaria meu corpo e nem marcaria os elásticos no vestido.
Achava que não importava tanto o deslumbre exterior, quanto achava primordial o bem estar interior, e por isso elas foram escolhidas a dedo.

Parei por um instante em frente ao espelho e deparei-me com uma imagem que me fazia feliz.
Peguei o vestido em cima da cama e ajeitei-o em meus braços, para que ele deslizasse em meu corpo no momento da vestida.

Minha mãe sem saber interrompeu-me exatamente neste momento, avisando que já estávamos atrasadas, olhei –a quase irritada e percebendo o momento ela saiu do meu quarto com a desculpa de acalmar os cachorros que latiam sem parar.
Eu então fiz aquele retomei meu ritual e fiz aquele movimento que há horas esperava.
Peguei o vestido ele escorregou por meus braços descendo por meu corpo com um cheiro de lavanda que dona Alzira usava ao lavar suas obras antes de entregá-las aos seus donos.
Dona Alzira alegava que um corte deveria ser lavado quando ainda existia como uma forma geométrica e outra depois de ser moldado e cozido.
Ouvi do meu quarto quando Jairo conversava com minha mãe na sala ao lado.
Apesar de Jairo ser uma homem com uma figura bonita, ele causava-me um certo desconforto.

Confesso que não conseguia vê-lo com simpatia, sentia uma atração por ele que me causava arrependimento, como se aquilo fosse crime que misturava-se com medo.

Mas apesar de tudo isto...Mesmo assim, não me controlava na hora de provocá-lo.

Estranho, não me lembrava de termos combinado ir a festa juntos.


Precisa de ajuda para abotoar o vestido, ainda não dava pra saber como tinha ficado.
Ao entrar na sala Jairo e minha mãe pararam de falar e eu pedi para que um deles fizesse a gentileza de abotoá-los apontando para minhas costas.
Jairo prontificou-se e começou a fazê-lo.
Eu recebi um olhar de desaprovação de minha mãe por ter feito pedido tão provocante.
Fiz de conta que não percebi seu olhar, mas ela foi imediatamente distraída ao perceber que uma de suas latas não estava bem fechada.
Sabia que ao fazê-lo Jairo veria minha roupa intima, mas apenas o suficiente para despertar mais sua curiosidade.
Pedi para que me aguardassem mais um instante para terminar com as jóias e pegar minha bolsa que tinha deixado no quarto.
Fui para o meu quarto e abri um porta jóias que ficava em cima da penteadeira, abri meu armário e escolhi a bolsa que mais combinava com o sapatos.
Mas o que eu queria mesmo fazer, era olhar-me no espelho para saber como tinha ficado e nesse momento tive a certeza que dona Alzira era uma verdadeira artista, e que Jairo só estava ali para saber como eu tinha ficado, para então correr e contar para dona Alzira.
Não esqueço o momento que sempre que dona Alzira tirava minhas medidas ela as aumentava em quatro números, tendo eu que voltar lá varias vezes para fazer várias provas.
Mas naquele da encomenda dia disse a ela que estava com muita pressa e tinha trazido as medidas anotadas num pedaço de papel.
Ela não questionou pois não correria o risco de ser pega em flagrante e poderia fazer sua pequena maldade.
Pedi a dona Alzira que fizesse as provas do vestido em sua filha que tinha quase o mesmo corpo que eu, pois eu estaria viajando e chegaria as vésperas da festa, e ela sabia da minha aflição quando ia a sua casa, por conta do riacho.
Ela também não se opôs e como combinado entregou-me prontíssimo, e ali estava a prova. Quando anotei minhas medidas, havia tomado banho de ervas e naquele banho usei a erva de embair, e anotei quatro números a menos do que media, adulterando assim minhas próprias medidas.
Era sem duvida um risco que corria e não teria tempo de providenciar um vestido novo, caso ela não os alterasse como eu imaginava.

Então seguimos para o tão esperado evento social.
A festa foi um sucesso, e por mais que elogiasse dona Alzira pelo feito, ela parecia que não estava muito feliz, eu em compensação estava muito bem.
Naquela noite minha mãe havia me avisado que dormiria em nosso apartamento, pois precisaria estar cedo na cidade para acompanhar os preparativos do almoço que ela estava oferecendo ao meu pai por conta da sua chegada da Europa, e que tinha pedido a Jairo que me acompanhasse de volta até nossa casa na fazenda que ficava a mais de uma hora de viagem da cidade.

A festa foi maravilhosa e enquanto aguardávamos nossa carruagem, Jairo foi buscar seu cavalo que o atrelaria atrás da carruagem para sua volta.
Sugeri a minha mãe que me deixasse convidá-lo a dormir na fazenda, mas mesmo ela sabendo que todos os empregados dormiam na fazenda, com exceção do nosso cocheiro que precisava ficar para poder buscar meu pai na estação, mais um motivo que Jairo precisava me acompanhar, mas mesmo assim ela não permitiu achando que poderia estar colocando minha reputação em risco.

E minha mãe somente deixara-o acompanhar-me pois dona Alzira tinha garantido-lhe que Jairo estava mudado e que ela que ficaria na espera de seu retorno.
Jairo após deixar-me em casa, era obrigado a passar no sitio de dona Alzira pois sua casa ficava a poucos metros dali.

Minha mãe sentiu-se segura em permitir e afinal nossa fazenda ficava a menos de meia hora do sitio de dona Alzira, bem onde nasce o riacho.
E não seria incomodo nenhum ela esperá-lo uma vez que ele era obrigado a passar por ali, e ela mesma se prontificou a esperara-lo e no outro dia iria até a cidade para certificar minha mãe de seu retorno.
Eu estava satisfeitíssima com os resultados obtidos pelo banho de ervas.

E confirmava-os no cansaço dos meus pés, por não conseguir ficar uma dança sequer sem realizar, e quando não estava dançando , amigas chamavam-me para elogiar-me ou contar confidências ou então, pedindo conselhos sobre suas duvidas amorosas.
Estava exausta e nem a carona que tínhamos que dar a dona Alzira e suas filhas e os quilômetros a mais que tínhamos que percorrer me incomodava naquela hora.
Queria apenas entrar naquela carruagem e ver a hora de chegar em casa para descansar.
Após Jairo acomodar-nos dentro da carruagem, ele foi ocupar o lugar que o cocheiro havia deixado vago.
Dona Alzira e sua filha não esperaram nem a carruagem sair para poderem se desfazer de tudo o que as apertavam , começando por tirar os sapatos, espalhando-os pelo piso da carruagem e esses foram pulando como pipocas até a chegada no sitio de dona Alzira.

Quando chegamos dona Alzira e sua filha mal se despediram de nós, entrado em sua casa sem ao menos dizer boa-noite.
Seguimos viagem, e após algum tempo eu sem conseguir dormir começava a ouvir o barulho do riacho que ia crescendo em meus ouvidos dando-me a impressão que meus tímpanos fossem explodir.

Achava que o barulho aumentava consideravelmente devido ao medo que ele me causava, mas só fui perceber que o motivo era outro quando a carruagem abruptamente parou.

Dona Alzira dormiu, e somente no outro dia quando foi a cidade é que ela veio a descobrir que Jairo não dormiu em minha fazenda e nem retornou para sua casa, pois ele não chegou além do barulho das águas.

Nessa mesma manhã encontraram meu corpo com parte do vestido boiando no lago que ficava na entrada da cidade.

Depois de tudo, dona Alzira costurou apenas mais um vestido para mim, aquele que minha mãe havia pedido para ela fazer.
E era exatamente igual ao que usei naquela noite.

Minha mãe havia mandado dona Alzira costurar esse outro vestido para mim.
Porque como disse antes, é claro que se eu fosse pedir, ela não o faria.

Nesse dia o almoço em homenagem ao meu pai foi cancelado, pois agora eles tinham outros preparativos a fazer.

4 comentários:

Dona Sra. Urtigão disse...

Uauu! Fantástico! Sim, realismo fantastico, bem construido com um final estupendo !

Adolfo Payés disse...

WOW es una delicia leerte y sentir tus cuentos en el alma..

hermoso


seguirte en la lectura es bellisimo..

saludos fraternos

Carlos Tronco disse...

Selena, não compreendi tudo, em particular o desfeche, o que ocorreu no rio; das duas coisas uma, ou faltam algumas palavras, pontos e vigulas para melhor entender, ou então tenho de mandar fazer um vestido...
Abraço carinhoso sempre

Big clash disse...

O Fuxuca Marimbondo indica seu blog para receber o Prêmio Dardos.
Esta premiação foi criada em reconhecimento ao trabalho desenvolvido por blogueiros nas mais diversas áreas. Premia a criatividade e busca promover a confraternização entre os blogueiros cujos trabalhos agreguem valor à Web.

Receba seu prêmio Dardos Acessando http://fuxucamarimbondo.blogspot.com/

Abraços.